I
Abro o olho: Isa, bandeja,
torrada, banana, café, leite, manteiga.
Fico espreguiçando. Isa quer que eu
coma. Quer que eu deite cedo. Pensa
que sou criança.
Depois que o marido da Isa foi
embora ela ficou me marcando ainda
mais. Isa diz que ele volta, mas
eu duvido. Primeiro, ela não
era casada com o marido dela. Segundo,
acho que eles não se gostavam
muito: Isa de vez em quando fazia
programa, e ele sumia durante dias.
Acho que agora sumiu de vez. Isa
espera que o marido volte, a qualquer
momento. As camisas dele estão
todas passadinhas na cômoda
e ela mandou consertar o binóculo, o cara
era doido por jóquei. Ela
não sai mais de casa, nem prum programa barra limpa, mas até
agora, nada.
O Renê me telefona pra fazer um programa, de noite. Eu digo que
está bem. Tomo nota do endereço.
Na praia está toda a turma. Combinam ir pro Zum Zum. Eu digo
que talvez vá. Se o meu
programa acabar cedo eu vou. Mas eu não digo
nada do meu programa para eles.
Eles estão por fora. Dois já dormiram comigo, mas só
dois. A gente vai pra boate, dança, bebe e depois eu
venho pra casa. É mais camaradagem
que outra coisa. A gente brinca,
se diverte e pronto.
I I
O apartamento é muito bonito. Nós somos quatro garotas e
eles são também quatro. Não conheço nenhuma
das outras meninas, mas devem
ter sido mandadas também
pelo Renê. Como ninguém conhece ninguém, começa
aquela escolha chata, de sempre. Os clientes do Renê são todos
coroas, muito educados mas danados de lentos para se decidir.
DIÁLOGO, POSSÍVEL (Mas inventado)
UM COROA
Deseja ficar com a moreninha de cabelos
curtos?
Ainda que reconhececendo seus inegáveis
Meu prezado amigo
encantos, minhas predileções se inclinam
para a jovem loura de olhos verdes.
Aceito qualquer composição. Fique com a
loura. Eu fico com a morena.
OUTRO COROA
Nem por um momento pensei em privá-lo de
sua eleita. Cedo-a com inexcedível prazer.
Ora, ora, meu distinto
A lourinha é realmente um encanto.
e querido companheiro
A moreninha tem um ar melancólico que me
seduz. E a loura é um ser esplêndido, cheio
de luz que me atrai como se eu fosse uma
libélula.
Bebemos e conversamos. Três são cariocas e um deles é
paulista.
O paulista é o que fala
menos. Eu não gosto muito de paulista, eles são
todos ignorantes e brutos e acham
que resolvem tudo com dinheiro. Torço para o paulista não
me escolher. Ele me olha e quase enfio o dedo no nariz para ele ficar com
nojo. Mas não enfio, até rio para ele, um riso de garota
tímida que eu sei fazer. Os cariocas estão divertindo o paulista,
sem subserviência, devem ser todos do mesmo nível.
DIÁLOGO (Verdadeiro)
COROA PAULISTA
É carioca?
Gosta de quê?
Você
Gosta de que poetas?
Gosta de Kafka?
É a primeira miss que diz que leu Kafka
e leu mesmo.
Leu Pessoa, etc.?
EU
Sou.
Gosto de música e poesia
Gosto de Fernando Pessoa, Beethoven,
Lennon & McCartney. Já me chamei
Lúcia McCartney.
Gosto de Kafka também. Aquele pobre
homem virando inseto! (Conto história
chamada Metamorfose).
Não sou nem li. Um garoto me contou a
história, chama-se metamorfose. Faz
sempre um grande efeito nas conversas.
Li Pessoa, etc.
Cada qual vai para um quarto. Renê sabe que eu não gosto de
promiscuidade. Eu vou para o quarto com o paulista. Sento num sofá.
Ele também senta. Depois
deita a cabeça no meu colo, diz que não está
com vontade de fazer nada, "esses
caras cismaram que eu hoje tinha que
ir com uma garota pra cama, mas
vamos só conversar, está O.K.?" Eu
digo que está O.K.. Ele
diz que não quer estragar as coisas. Eu digo que
está bem. (Quero ir para
o Zum Zum). Passo a mão nos cabelos dele.
"Eu não quero fazer isso,"
diz ele, tirando a roupa. Eu também tiro a
roupa e nos deitamos, ele sempre
dizendo que não quer, mas me papando assim mesmo.
Depois de nos lavarmos, separadamente, ele se veste põe dinheiro
na minha bolsa. Ele fica muito
calado, com um jeito meio distraído, meio cansado, meio desinteressado
como os coroas fazem. Vamos para a sala
e os outros todos já estão
lá, pois nós perdemos muito tempo com aquela
indecisão dele. Estão
todos dançando. Ele me olha um pouco e diz "você pode ir embora."
Eu pergunto se ele não quer o meu telefone e ele fica pensando um
tempão me olhando e olhando pra sala onde estão os outros,
o cara é mesmo indeciso,
e depois de nem sei quanto tempo ele diz, "qual
é?"
Estou no Zum Zum com os garotos. De vez em quando penso no
coroa. O que será que ele
faz?
I I I
A coisa de que eu mais gosto no mundo é dormir. Acordar ao
meio-dia e ir para a praia. Hoje
é dia 4 de dezembro e está um sol bárbaro
lá fora. Me espreguiço.
Isa chega com uma bandeja. "Fiz uma gemada
para você," ela põe
o prato fundo na minha frente, "você agora só chega depois
das seis, perdendo tempo com esses garotões." Eu gosto de dançar,
ela não gosta; eu gosto
dos homens (bonitos, jovens, fortes) ela gosta do
marido que nem é casado
com ela e ninguém sabe onde anda; eu não
gosto de ficar sozinha, eu -- "Isa,
pelo amor de Deus!, não chateia", me levanto, ponho um disco na
vitrola e começo a dançar, eu gosto de ficar
o dia inteiro ouvindo música,
eu preciso ouvir música, é igual ao ar pra
mim. "Estou falando para o teu
bem." "Eu sei que você está falando para
o meu bem." "Ninguém agüenta
essa vida que você está levando." "Não
vejo nada de errado nela." "Pense
no futuro." "O futuro não me interessa
e não me chateia mais senão
vou-me embora." "O José Roberto telefonou,
o sujeito de São Paulo que
esteve com você ontem."
Isa gostaria de saber coisas sobre o paulista, mas resolvo fazer
mistério para ela deixar
de ser chata. Também não sei nada sobre esse
José Roberto. Nem sabia
que ele se chamava José Roberto. José Roberto
não é nome de coroa.
Ele vai telefonar de novo.
TELEFONEMA
-- Alô.
-- Quem fala?
-- Com quem quer falar?
-- Com D. Lúcia, por favor.
-- Quem quer falar com ela?
-- José Roberto.
-- É a Lúcia que está falando.
-- Como vai ? Você está boa ?
-- Bem. E o senhor?
-- Bem.
(Ele cala a boca. Eu também calo. Fico nervosa:
--Alguma novidade?
-- Eu queria me encontrar com você.
-- Quando?
-- Hoje.
-- A que horas?
-- À hora que você puder.
-- Eu posso a qualquer hora. Depois das quatro.
-- Você prefere à tardinha ou à noite?
-- Qualquer hora.
-- À noite, então. 8 horas? Podemos jantar juntos.
-- Está certo. O senhor passa aqui, eu passo aí, como é
que é?
-- Você passa aqui.
-- Mesmo endereço de ontem?
-- É outro. Toma nota, por favor.
IV
Ele tem um cheiro bom e fala muito suavemente comigo. Estamos
sós. Ele diz que ontem tinha
gente demais, "eu queria ficar só com você."
Ele parece meio constrangido, como
se nunca tivesse saído com uma
garota de programa. Senta-se longe
de mim. "Você nunca saiu com uma garota de programa antes?" "Já,
já saí com uma porção, muitas, nem sei quantas."
"Então por que você fica fingindo?" "Não estou fingindo
coisa alguma."
Ele prepara as bebidas. Em cima da mesa da sala vejo um monte de revistas
e um papel, José Roberto, estive aqui e não te encontrei,
telefona
pra mim, beijos, Suely. Pego o
bilhete, faço um bolinha com ele e jogo
pela janela. A noite está
muito escura, eu não vejo o mar mas sinto o seu
cheiro. De noite o mar tem um cheiro
diferente, o mar muda de cheiro
várias vezes por dia.
"Pra você", José Roberto me dá um vidro de perfume.
Joy. Adoro perfume. Passo um pouco no braço. "Você quer ouvir
música?" Ele me
leva a um quarto, onde há
um gravador imenso, coloca na minha cabeça fones que cobrem inteiramente
minhas orelhas e ouço a música mais linda
do mundo. "Espetacular, vou ficar
aqui a noite toda." -- ele ri -- "por que
você está rindo?",
-- ele responde, mas eu não ouço, -- "o quê? o quê?",
então ele tira os fones
dos meus ouvidos: "não precisa gritar tanto". Com aqueles fones
no ouvido a gente pensa que fala, mas grita, como um
surdo. Isso deve ter acontecido
com outras garotas.
CENA (subjetiva)
-- Isso aconteceu com outras garotas?
-- Isso o quê?
-- De botar o fone nos ouvidos e ficar gritando igual uma surdinha, como
eu fiz.
-- Não. Aconteceu com minha mãe, mas ela não é
propriamente
uma garota.
-- Você tem mãe?
-- Você acha que eu sou muito velho para ter mãe?
-- E ela veio aqui?
-- Veio.
-- E você traz a sua mãe ao mesmo lugar em que você
traz as suas, essas...
--Eu moro aqui. Quando estou no Rio. Essas o quê?
-- Acho que você está mentindo. Essas vagabundas.
-- Eu não minto nunca.
-- E quem é a Suely?
-- Suely. Nunca ouvi falar em Suely.
-- Mentiroso.
-- Eu não minto nunca.
-- Então passe bem. Adeus.
-- Espere. Não me deixe. Por favor!
Tiro os fones do ouvido.
CENA (Verdadeira)
-- Isso aconteceu com outras garotas?
-- Isso o quê?
-- De botar os fones nos ouvidos e ficar gritando igual a uma
surdinha como eu fiz.
-- Acontece sempre. Por isso eu ri.
-- Com todas as garotas que vêm aqui?
-- Todas.
-- São muitas? Milhares?
-- Milhares não. Muitas.
-- E quem é Suely ?
-- É uma amiga minha.
-- Eu sou muito ciumenta. Joguei fora o bilhete da Suely, assim
você não sabe o telefone
dela.
-- Eu tenho num caderninho. De qualquer forma muito obrigado
pelo ciúme.
-- Se eu soubesse cozinhar fazia comida pra você. Eu queria ficar
aqui.
-- Eu peço o jantar pelo telefone. Você gosta de champanha?
-- Qualquer coisa.
Dois garçons chegam com travessa, baldes de gelo, garrafas. Que
comida! "Estou no maior pilequinho", "Então você pára
um pouco, pois
o que nós vamos fazer agora
deve ser feito em plena consciência." José Roberto me leva
para o quarto.
"Eu era chamada de Graveto." "O graveto mais lindo do mundo",
diz ele, me beijando. Eu vou toda
pra ele, me entrego, me dou, ele está
dentro de mim, eu rezo para demorar
bastante, peço "demora bastante! muito! não acaba!" ele me
põe doidona, me derrete e meu coração fica batendo
no peito, na garganta, na barriga, que-bom, que-bom, que-bom, que-bom.
que-bom!
DIÁLOGO
-- Nunca vi o José Roberto. Ele telefona e diz: me manda uma
garota, você sabe como eu
gosto.
-- Como é que ele gosta?
-- Inteligente, bonita e depravada.
-- Eu não sou depravada.
-- Se for muito inteligente não precisa ser muito depravada. diz
ele.
-- Eu gamei.
(Renê dá uma gargalhada)
-- Que tipo de pessoa ele é?
-- Não sei. Outro dia mandei um cabacinho pra ele. A garota estuda.
Eles já estavam na cama quando ele descobriu que a garota estava
matando aula. Ele ficou uma fera.
Deu uma lição de moral na guria, fez
ela se vestir, e prometer que não
matava mais aula, e mandou-a para o colégio. E pagou dobrado, sem
sequer tocar nela. O cara é muito esquisito.
V
José Roberto está em São Paulo. Já se passaram
sete dias. Isa
cismou de mudar para Ipanema. Arranjou
apartamento, comprou um
fiador (desses que anunciam no
jornal) e quer mudar ainda esta semana. Recebi carta de José Roberto.
(Não tem data, nem nada)
Hoje me deu vontade de escrever para uma pessoa que não conhecesse,
ou que, conhecendo, nunca mais viesse a ver. Fui ao
cinema e voltei para o apartamento.
O filme era ruim. No meu
caderninho tenho uma porção
de endereços, mas não telefonei para ninguém. Existe
uma garota chamada Neyde, ela é bonita, inteligente.
Eu sinto (ou sentia?) uma
grande atração física e mental por ela. A
nossa pele combina, os nossos
gostos combinam, os nossos órgãos
sexuais combinam. Peguei
o telefone para ligar para ela, três ou
quatro vezes, mas não
liguei. Na mesa do telefone havia uma folha de
papel onde eu desenhava bolas
e quadrados. O estéreo estava ligado, Eleanor Rigby, chovia, chovia
mesmo, bolas e quadrados tinham
virado Lúcia, Lúcia,
l u c, ucia, LÚCIA, etc. Não liguei para Neide -- passado
passou? Solidão é bom (mas) depois que eu me esvaziei com
um mulher ou me enchi com
uma mulher. Eu estava sozinho, e não
queria como sempre quis,
uma mulher perto de mim, para fruí-la física
e espiritualmente e depois
mandá-la embora, e essa é a melhor parte, mandar a mulher
depois embora e ficar só, pensando e pensando.
Pensando em você é o que estou fazendo agora. Você é
o meu Minotauro, sinto que entrei no meu labirinto. Alguém será
devorado. Adeus?
"Você acha que eu vou vê-lo novamente?". "Vai me dizer que
está apaixonada." Isa acha que isto é uma besteira, que eu
estou apenas entusiasmada, porque o José Roberto é diferente
dos garotões da turma,
é mais experiente, mais
sabido. "E olha, se por acaso ele aparecer, não
vai logo se abrindo pra ele, os
homens não gostam de mulher oferecida."
Combino com Isa que se o José Roberto me procurar eu vou fazer
o doce, me fingir de desinteressada.
TELEFONEMA
-- Alô.
-- José Roberto! Querido!
-- Como vai?
-- Eu vou bem. Estou com uma saudade doida de você.
-- Eu também senti saudades de você.
-- Adorei sua carta. Já li mais de cem vezes. Até na hora
de tomar
banho eu levo ela comigo pro banheiro.
(Ele fica calado!)
-- Onde é que você está?
-- Estou no apartamento.
-- Vou aí te ver.
-- Eu estou saindo.
-- Eu quero te ver.
-- Hoje não, não é possível.
-- Por favor, eu preciso te ver.
-- Sinto muito, mas é impossível.
-- Eu estou triste, José Roberto, estou infeliz, deixa eu te ver.
(Isa pega o telefone: "cavalheiro, vê se pára
atormentar minha irmã,
ela já não regula
vem e o senhor vem atrapalhar ainda mais, fique sabendo que li a sua carta,
o senhor também é doido. Como?, ela pegou um táxi
e
foi para aí". saio
correndo para me vestir, volto para a sala. Isa irritada
me passa o telefone . "ele
disse que você não pegou táxi coisa nenhuma,
para eu chamar você senão
ele desliga o telefone na minha cara, o patife.")
-- Eu vim aqui ver um negócio, e estou indo embora agora.
-- Você tem uma mulher aí com você.
-- Vou para São Paulo hoje e estarei de volta dentro de cinco dias.
Dentro de cinco dias, aqui no meu apartamento, às 8 horas.
Ele tem a voz tão bonita! Estou no Le Bateau, no meio do maior barulho,
mas só ouço a voz dele.
(No interior da minha cabeça).
A turma diz que eu estou no mundo da lua, dançando de olhos fechados,
e rindo sozinha. Eles não sabem de nada! Não sabem o que
é o amor! Todos uns bobos.
VI
Já se passaram quatro dias. Nós mudamoa para Ipanema e estamos
sem dinheiro, pois o apartamento
é maior e precisa de móveis novos, e tivemos que dar um mês
adiantado para o fiador que a Isa comprou. Isa
está fazendo um programa
por dia, de tarde, com uns amigo antigos. Ela
é uma grande mulher, programa
para ela não falta, mas ela não gosta de
sair de noite. Acho que ela ainda
está esperando pelo marido.
Recebo carta do José Roberto.
Solidão é muito importante. O telefone tocava sem parar.
Eu
dera folga às empregadas.
A campainha da porta tocava. Fui ouvir
música usando os audiofones,
bloqueando o mundo exterior. Mas a
todo instante tirava os fones
dos ouvidos e SEMPRE uma campainha tocava, alguém me procurava quem
seria? Sofreria?
Resolvi sair de casa ir para um lugar onde certamente não
encontraria quem queria me
encontrar Apenas uma das pistas do
boliche estava ocupada (por
três jovens). Ocupei a pista mais distante.
A cada strike o apanhador
de pinos batia palmas, lentamente, com preguiça; eu só via
as pernas dele, magras, protegidas por umas
calças desbotadas
cortadas na altura dos joelhos.
Uma moça chegou e sentou numa mesa próxima. Eu tentei,
várias vezes, sem
êxito, uma jogada de efeito.
"Você quer que eu marque para você?" perguntou a moça
sentando-se em f rente à minha
cartela.
"Pode marcar", disse eu.
Eu fiquei jogando ela marcando. Terminada a 10ª jogada eu perguntei
"você quer jogar" Ela respondeu: "Não. Eu já joguei
muito isso. Olha no quadro há mais de seis meses estou lá
na cabeça e
ninguém bate a minha
contagem. Nenhuma mulher bem entendido."
No quadro estava escrito
ELIETE 275 -- 11 DE MAIO. "Enjoei" continuou ela "deixei crescer as unhas..."
Eu joguei mais uma partida enquanto conversávamos trivialidades.
Terminada a partida chamei o garçon, pedi uma coca botei a gravata,
o paletó e a moça
sumiu. Eu fiquei frustrado. Um desconhecido total
não te pode fazer
mal. Além disso ela tinha um sorriso bonito, sabia
falar (som) e cruzar as pernas.
Botei uma nota alta na bola e mandei
pro apanhador. Ele mostrou
a cara e riu; tinha poucos dentes. Eu
bati palmas pra ele, do jeito
preguiçoso e gozador que ele tinha usado
comigo.
Ela estava na porta esperando por mim.
"Duzentos e setenta e cinco não é mole não," eu disse.
"Eu jogava todo dia," disse ela.
Fomos andando.
"Eliete," eu disse.
"E você como se chama?"
"José Roberto."
"Você disse Eliete como quem diz o leão é o rei dos
animais."
"Você quer beber alguma coisa?", perguntei.
"Quero," disse ela.
Eliete usa o cabelo curto como você e os olhos dela têm o mesmo
brilho negro dos seus. É uma sensação boa, ficarmos
frente à frente,
sem pressa e sem mentira
disponíveis, recíprocos, enquanto bebemos
e o mundo flui suavemente.
Estou com muitas saudades de você. Lúcia. Lúcia. O
leão é o rei
dos animais?
VII
Chego no apartamento antes de oito horas. Ele me recebe com uma revista
americana na mão. Me dá uma vontade de rir, quando o vejo,
e
rio, abraçada a ele, feliz.
José Roberto sorri apenas, divertido e
surpreendido, com o meu entusiasmo
e com minha cara nova. Ele passa
a mão na minha cabeça,
tenta segurar meus cabelos, eu solto minha
cabeça, sempre abraçada
nele, meu corpo grudado no corpo dele, fervendo. "Quantos anos você
tem ?" Ele tem 36 anos mas eu não me incomodo,
ele pode ser coroa mas é
melhor que todos os outros. "E você?" "Dezoito anos", repete ele,
lentamente, como se estivesse dizendo uma palavra
mágica.
"Saí todas as noites, do Zum Zum para o Le Bateau, do Le Bateau
para o Sachinha, todas as noites,
você não se incomoda?" ''Você é que
sabe o que pode e o que não
pode fazer." "Eu quero te fazer ciúme." Ele
ri, misteriosamente, me beija no
rosto, não sei o que ele está pensando ou sentindo, mas ciúme
certamente não existe no coração (e na cabeça)
dele.
Eu não quero saber o que ele faz. Ele diz que talvez seja espião
russo (ou americano) ou trapezista
de circo ou poeta ou fotógrafo ou farmacêutico Ele pode ser
isto tudo, ou outra coisa qualquer. Ele é
estranho, às vezes
fala no telefone em inglês, francês e creio que uma
vez em alemão. Ou português,
frases curtas, enigmáticas. Mas nada
disso me incomoda, ele pode ser
o que bem entender, o segredo me atrai ainda mais.
Ir para a cama com ele é cada vez melhor. Ele sabe amar, me deixa
louca, horas seguidas. Me deixa mortinha -- durmo direto e quando acordo
ele está calmamente lendo
um livro, ou fumando cachimbo e ouvindo
música naqueles fones dele,
pronto pra me amar de novo.
Amanhã ele vai para São Paulo, ou Buenos Aires ou Lima, o
assunto não ficou bem esclarecido. É meia noite e ele diz
que tem o que fazer, que tem que sair. Isso apenas, "tenho que sair." Coloca
um monte de dinheiro
na minha bolsa: "para você
ir à boate." Descemos juntos, ele carregando
uma pasta. José Roberto
me beija no rosto e me põe num táxi. Nesse
instante vejo um enorme carro negro
se aproximar, e José Roberto entrar dentro dele. O sinal fechado
coloca o meu táxi ao lado do carro dele. O
chofer dele está todo de
preto, boné preto, roupa preta e tem uma cara
dura. José Roberto me vê,
eu aceno para ele. Ele acena de volta, alheio, distante, fechando os dedos
sobre a mão espalmada, como faz a rainha da Inglaterra no cinema.
DIÁLOGO (Inventado,
depois de um sonho)
CLIENTE (José Roberto)
faz programa?
Por que você
é prostituta?
vai para a cama com os homens?
PROSTITUTA ( Eu )
no escritório
ganho pouco na
loja
na TV
me perdi
Porque
gosto
perdi meu emprego
tenho um filhinho para sustentar
estou esperando uma nomeação
Eu não sou prostituta
Você não vai tirar
a roupa, benzinho?
CLIENTE (José Roberto)
fácil?
O dinheiro que você ganha
é
muito?
vil?
Você sabe o que é
complexo de Édipo?
Freud?
Já ouviu falar em
Sófocles?
Daqui a pouco eu tiro
PROSTITUTA (Eu)
Regularmente
Mais do que uma datilógrafa
Mais do que um gerente de banco
Ganho
Mais do que uma operária
Mais do que um coronel do exército
Conheço os dois mas prefiro o Sócrates (porque tomou
cicuta)
Você não vai tirar a roupa, benzinho?
CLIENTE (José Roberto)
Daqui a pouco eu tiro.
A prostituta é uma mulher
imoral?
PROSTITUTA (Eu)
Não tenho vergonha de ser prostituta.
o de uma lavadeira que lava cuecas
o de uma massagista
Meu trabalho não é
pior do que o de uma arrumadeira
que limpa
banheiros
o de uma dentista
o de uma ginecologista
O que você acha do amor livre?
Você não vai tirar
a roupa, benzinho?
CLIENTE (José Roberto)
O amor livre
não acabará com a prostituição
é uma iniqüidade
com os feios
é injusto com os pobres
diabos
com os pobres de espírito
com os pobres
artista de cinema
deixa você bonito
na mão se
conquistador
você não é
rico
poderoso
famoso
Daqui a pouco eu tiro.
PROSTITUTA (Eu)
Você não vai tirar
a roupa, benzinho?
CLIENTE (José Roberto)
Daqui a pouco eu tiro.
PROSTITUTA (Eu)
Minha vida
lindo
triste
dá um romance edificante
pornográfico
novo
hermético
dá samba (de festival)
é de amargar
é um punhal de dois amar
é sofrer
gumes fatais
não amar é sofrer mais
Você não vai tirar
a roupa, benzinho?
CLIENTE (José Roberto)
Quais os melhores clientes?
Daqui a pouco eu tiro.
PROSTITUTA (Eu)
Você -- é o melhor cliente.
Você não vai tirar a roupa, benzinho.
(O cliente tira a roupa e debaixo da camisa tem outra camisa e
debaixo da calça tem outra
calça e debaixo do sapato tem outro sapato.
As roupas já estão
batendo no teto. José Roberto continua tirando roupas
do corpo com rapidez cada vez maior
e dizendo importantes coisas, em alemão.)
CARTA (Recontituição mnemônica)
Ilmo. Sr.
Isaac Zaltman
Programa HOJE É DIA
DE ROCK
Rádio Mayrink Veiga
Nesta
Prezado Sr. Zaltman
Sempre ouço o seu programa
HOJE É DIA DE ROCK, o melhor do
rádio brasileiro.
Muito obrigado por transmitir diariamente a música
dos THE BEATLES. Continue
sempre assim.
CARTA (ipsis litteris)
"Palavras, palavras, palavras," diz Hamlet para Polonius no
segundo ato.
Palavras, palavras, palavras, dirá você, vítima também
da mesma dúvida existencial do personagem shakespeariano, ao ler
esta carta.
Um dos poemas de John Lennon conta a história de uma moça
que abandona a família
em busca de fun. "Ela tinha tudo," dizem os
pais perplexos ao lerem a
carta de despedida. É uma sexta-feira, a
moça saiu sub-repticiamente,
apertando o lenço de encontro ao peito
e sentindo não ter
podido dizer na carta tudo aquilo que pretendia.
Tem um encontro marcado com
um homem que representa para ela,
fun, alegria, diversão.
"Fun is the one thing that money can't buy".
A letra inteira está
na capa do disco. Você já deve conhecê-la.
A música do teu irmão
(ou ex-noivo?) McCartney é muito bonita
também.
Você saiu de casa (que era um edifício de tijolos convenções
e miséria) para entrar num circuito fechado, sem ar e sem luz, como
o túnel de uma toupeira.
Túnel que não pode ser o caminho da
libertação
individual que você talvez estivesse procurando.
Enfrente a realidade com suas dificuldades e asperezas.
"Sujeito pernóstico e besta," diz Isa depois de ler a carta. "Ele
é
mais besta e mascarado do que maluco.
Faroleiro. Velho desfrutável. Atrevido." "Ele não é
ve1ho." Isa tem marcação com o José Roberto. Ela acha
que se ele gostasse de mim ele se tornava uma espécie de protetor
meu. Horrível, essa palavra.
Meu protetor. Meu coronel. Se pudesse, eu
era o coronel dele. Coitada da
Isa. Eu não preciso de protetor, preciso de amor.
Mas começou tudo errado. O túnel é eu ser uma puta?
A libertação individual é ser bem comportado? Ter
um emprego decente? Ele não me entende, meu Deus, como é
possível isso, se ele não me entende, quem
vai me entender? "Chora, manteiga
derretida," diz Isa, saindo do quarto,
batendo a porta.
Isa está cada vez pior, reclamando que eu chego tarde (ou cedo)
todo dia. Estou muito infeliz e
queria ver José Roberto. Passo os dias escrevendo cartas. (Para
o José Roberto). Assim que acordo (meio-dia) começo a escrever
cartas. (Que não mando). Hoje estou muito angustiada. Ele não
precisava me dar adeusinho como se eu fosse um súdito (uma súdita?).
MINHOCA ENROLADA NO MEU PESCOÇO
-- LAGARTIXA ANDANDO NO MEU
PEITO -- BARATA ENROSCADA NOS MEUS
CABELOS -- RATO ROENDO A MINHA
BOCA:
DIÁLOGO
-- José Roberto esteve aqui.
-- A que horas?
-- De tarde.
-- De tarde? Mas ele sabia que hoje eu tinha a primeira aula do
curso de inglês.
-- Ele vai embora, Lúcia. Veio deixar um cheque para você.
Disse
que vai ficar anos e anos fora.
-- Anos e anos? Ele disse isso?
-- Disse que talvez nem voltasse. Ele disse, eu não sou dono de
mim, nem de ninguém, diga
isso a ela.
-- O que significa essa frase?
-- Não sei.
-- Ele estava triste?
-- Não sei. A cara dele não dizia nada.
-- Não acredito, não acredito. Ele me ama.
-- Fala devagar! Não estou te entendendo.
"Seis horas da manhã, isso é hora de chegar em casa," repete
Isa.
Eu grito: "Vou embora, vou passar
um belo fim-de-semana longe de tudo, onde ninguém me chateie, vou
sumir, se o José Roberto telefonar (de
onde?) diz que eu morri. eu tenho
que ir embora, Isa, do contrário quando
ele chegar (de onde?) e ligar para
mim eu saio rastejando, juro, estou
sentindo dor no corpo todo de tanta
saudade desse homem."
Isa: "estou cercada de doidos por todos os lados."
VIII
Em São Paulo, na casa da minha tia. Estou aqui há uma semana.
A geladeira tem um cadeado. Minha tia chama a parte da casa onde vivem
as empregadas de edílica. O passatempo dela (minha tia) é
falar mal das empregadas, dos vizinhos, do governo, do marido e dos artistas
de cinema, rádio e televisão. Meu tio chega diariamente por
volta das sete horas, com
o Estado de São Paulo debaixo
do braço e diz sempre a mesma frase: "uf,
que dia, nem tive tempo de ler
o jornal," sempre com a mesma inflexão e
a mesma falta de significado ou
destinatário. (Como o jornal, que no fim
de semana é vendido a peso
pela minha tia).
Meu tio liga a televisão.
CENA (Verdadeira, com pequenas adaptações)
LOCUTOR: O Presidente da República pede a união de todos
os brasileiros!
MEU TIO: Este país não tem jeito!
MINHA TIA: São todos uns ladrões!
MEU TIO: Quem paga somos nós!
LOCUTOR: Gloriosos destinos da nação brasileira!
MINHA TIA: O dinheiro vai para as amantes e para os parentes!
(Mesa do jantar)
MINHA TIA: A filha está grávida e eles querem esconder, pensando
que os outros são imbecis!
MEU TIO: Coitados!? A filha única!
MINHA TIA: Coitados!? Só não viu o que ia acontecer quem
não quis. Aquela sirigaita não podia acabar de outro jeito!
(De volta à sala de televisão)
CANTORA: Larali, laralá, etc.
MINHA TIA: Larali, laralá mas foi presa pela polícia tomando
as tais bolinhas!
MEU TIO: Fulana?!
MINHA TIA: Fulana sim senhor! Você não sabe nada. Gastaram
uma fortuna para abafar o escândalo!
Hoje é o sétimo dia do meu desterro. Sou a mulher mais infeliz
do mundo. Não tenho pai nem mãe. (Mas até acho bom
eles terem morrido,
para não ficarem iguais
aos meus tios. Pai e mãe não fazem falta. Irmão faz,
foi por isso que eu arranjei a Isa pra irmã, ela é um pouquinho
burra e chata, mas é minha irmã, não no sangue, no
coração).
Passo os dias e as noites ouvindo música no rádio de pilha
e
escrevendo cartas. Querido
José Roberto eu te amo eu te amo eu te amo
eu te amo eu te amo eu te
amo eu te amo eu te amo eu te amo. RASGO. Querido José Roberto.
Não posso viver sem você, quero ficar perto de
você, pode ser como
empregada ou cozinheira ou engraxate ou lavadeira
ou tapete ou cachimbo ou
chinelo ou cachorro ou barata ou rato, qualquer coisa da sua casa, você
não precisa falar comigo, nem olhar para mim. RASGO. Na
casa dele não tem barata, cachorro, rato. Cachorro tem acento circunflexo?
Circunflexo tem acento circunflexo? Sou muito ignorante para escrever para
ele. (Esqueço que nem sei onde ele está).
Não sei onde ele está.
Meu coração está negro. O ar que eu respiro atravessa
um caminho
de carne podre cancerosa que começa
no nariz e termina com uma pontada em algum lugar nas minhas costas. Quando
penso em José Roberto um raio de luz corta o meu coração.
Ilumina e dói. As vezes penso que minha única
saída é o suicídio.
Fogo às vestes? Barbitúricos? Pulo da janela? Hoje à
noite vou à boate.